
Quem trabalhou a discussão da liberação da comercialização das drogas com mais lucidez foi o economista Milton Friedman, pai do liberalismo mundial, que defendia já na década de 70 a liberação completa das drogas e avisava que o mundo iria entrar em uma onda de violência jamais vista. Dito e feito.
Nesta entrevista Friedman falava justamente disso, e ainda vai mais além, quando perguntado sobre o mal causado pelo crack. Ele afirmou que a única razão desta droga existir era porque a cocaína era muito cara, e daí o crack ocupou o seu mercado.
Além de Friedman, a revista inglesa Economist foi a grande incentivadora do debate, defendendo a mesma posição. Atualmente a ONU tem alertado que é preciso abrir o debate, principalmente em função da derrota dos Estados no combate ao narcotráfico, que fez mais vítimas no mundo do que a Segunda Guerra Mundial.
Esta posição não é a favor do uso das drogas, mas é algo semelhante ao que aconteceu com a liberação do álcool. Ninguém é idiota a ponto de defender a embriaguez do cidadão, mas aprender com os erros do passado, onde a proibição do uso fez com que a criminalidade explodisse nas grandes cidades americanas, já é um bom começo.
A posição de Friedman inclusive é um bom ponto para entender que liberalismo não tem nada a ver com esquerda ou direita, mas com uma forma de ver o mundo. Os míopes ideológicos, que não enxergam um palmo além de sua “torcida política organizada”, acreditam que ser liberal é ser de direita.
Abaixo coloco uma outra entrevista de Milton Friedman sobre este assunto. Para quem não fala inglês e não conseguiu acompanhar a entrevista em vídeo, é uma boa oportunidade para saber os fortes argumentos.
Paige: Tratemos primeiro do problema da legalização das drogas. Como é que veria a América mudar para melhor com a aplicação desse sistema ?
Friedman: Veria a América com metade das prisões atuais, com metade do atual número de prisioneiros, com menos 10 milhares de homicídios do que aqueles que hoje existem, cidades interiores onde existiria a hipótese da gente pobre que nela residem viver sem medo do que possa acontecer às suas vidas, cidadães que poderiam ser respeitados e que hoje são viciados e que sujeitos a se tornarem criminosos de modo a conseguirem a sua droga preferida, alem de poderem ser capazes de conseguirem a mesma com a certeza de que ela não se encontra adulterada. Você sabe, a mesma coisa que aconteceu durante a proibição do álcool está a acontecer agora.
Durante a proibição do álcool, as mortes devido à ingestão excessiva de álcool, ou devido a envenenamento provocado pela sua adulteração, subiram significativamente. De forma semelhante, por efeito da proibição das drogas, verifica um incremento das mortes por overdose e devidas à ingestão de substancias adulteradas.
Paige: Na sua perspectiva, como é que a legalização poderia afectar de forma adversa a América?
Friedman: O efeito adverso que a legalização pode ter é que bastante provável que possa vir a existir mais gente a consumir as drogas atualmente ilícitas. O que não é de todo certo que tal se verifica-se. Mas se fossem legalizadas, existiria a destruição quase total do mercado negro, o preço das drogas diminuiria drasticamente. E visto como economista verifica-se que: preços baixos tendem a gerar mais procura. Mas no entanto, existem algumas qualificações muito fortes para serem feitas a este respeito. O efeito da criminalização, da construção de criminosos das drogas, é conduzir as pessoas das drogas mais suaves para as drogas mais fortes.
Paige: De que forma?
Friedman: A liamba é uma substancia muito pesada e volumosa, e por esse motivo é relativamente fácil de interditar. Os guerreiros da guerra à droga têm sido melhor sucedidos na interdição da liamba do que, por exemplo da cocaína. Deste modo os preços da liamba aumentaram e ela ficou menos acessível. Esta situação incentivou por um lado a cultura de variedades mais potentes de liamba e por outro as pessoas foram conduzidas da liamba para a heroina, a cocaína ou crack.
Paige: Vamos então considerar agora outra droga, o crack.
Friedman: Na minha opinião, o crack nunca teria existido se não existisse a proibição. Porque é que o crack foi criado? Segundo compreendo, o método preferido de consumir cocaína era a inalação através das narinas, método esse que se tornou muito caro e para além disso, existia uma procura desesperada de uma forma de a acondicionar…
Paige: Os empresários?
Friedman: Claro, eles são empresários. As pessoas que estão a dirigir o tráfico de drogas não são diferentes de todas as outras, com exceção das seguintes diferenças: eles têm maior habilidade empresarial e menor preocupação em não prejudicar os outros. Dessa forma eles são mais irresponsáveis. Mas estão no negócio e estão a tentar obter o máximo que conseguirem. Sendo assim, descobriram que uma boa forma de fazer dinheiro era diluir o seu crack com bicarbonato de sódio ou outra coisa qualquer, queria dizer cocaína, o que quer seja que eles façam, eu não conheço o processo, de modo a que a possam vender no mercado em doses de 5 ou 10 dólares.
Paige: Falemos mais sobre isso daqui a pouco, mas com respeito ao crack, considerando o fato de ser muito viciante e considerando o fato de…
Friedman: Isso é muito dúbio. É viciante, mas com respeito ao crack o que compreendi de todas as evidencias médicas é que o crack não é mais viciante do que as outras drogas. Na realidade a droga mais viciante é o tabaco.
Paige: Bem, deixe-me refazer a pergunta. Todas as informações que tenho visto sobre ele sugerem que é uma droga que é muito agradável.
Friedman: Absolutamente. Sem duvida.
Paige: E o seu efeito é também muito curto.
Friedman: Sim.
Paige: E é muito dispendiosa porque as múltiplas doses custam muito dinheiro. A minha questão é: se as drogas fossem legalizadas e se a cocaína em forma de crack estivesse disponível a baixo custo, não poderia ser desvastante já que é tão agradável, estou a dizer que mais pessoas a poderiam obter e prolongar o seu consumo por períodos de tempo mais alongados?
Friedman: Bem, talvez. Ninguém consegue dizer com certeza o que aconteceria nessa situação. Mas eu penso que é muito dúbio que tal aconteça, porque todas as experiências recolhidas com as drogas legais indica que existe é uma tendência para as pessoas passarem das mais fortes para as mais fracas e não o contrário, assim como se progride da cerveja normal para a cerveja light. Essa é a tendência: de cigarros sem filtro para cigarros com filtro e baixo teor de alcatrão, e por ai adiante. Mas não podemos excluir que possa acontecer o que disse, mas, e este é um mas muito importante, as consequências prejudiciais do seu consumo seriam devido a várias razões muito menores que os que se verificam atualmente.
Na realidade a coisa que mais me incomoda sobre o crack não é o que está a falar, são os "bebês do crack", porque isso é que é uma tragédia real. Eles são as vitimas inocentes. Mas se eles não escolheram ser "bebês do crack", na verdade os que nascem com o síndrome alcoólico fetal também não o escolheram menos.
Paige: Como você sabe, em relação a isso, já vivemos numa situação com proporções epidêmicas. Posso dizer-lhe que em Maryland, um em cada quatro bebés que chegam ao hospital são viciados.
Friedman: Mas eu digo-lhe que os "bebês do crack" não são necessariamente viciados, mas têm tendência para nascer com pouco peso, com tendência para sofrer algum retardamento mental, e por ai adiante. Mas você sabe que o numero de bebês em que isso se verifica devido ao álcool é muito maior. Então o mesmo problema surge ai. E é o que me incomoda.
Debaixo das atuais circunstancias, uma mulher que é viciada em crack e está grávida tem medo de recorrer a qualquer tratamento pré-natal porque se tornaria a si própria numa criminosa, e estaria sujeita a ir para a cadeia. Agora suponha que existiria uma mudança de política, e que as drogas eram legalizadas. Com a legalização, essa inibição deixaria de existir. E você sabe que mesmo as mães viciadas em crack tem sentido de responsabilidade em relação aos filhos.
Não tenho duvidas que nessas circunstâncias seria possível ter um sistema de cuidados pré-natais muito mais eficaz, um sistema muito mais eficaz para persuadir as pessoas que consomem drogas a não ter filhos ou a não consumirem no período da gravidez e da aleitação.
Paige: Vamos voltar-nos agora para a primitiva gênese da sua crença de que as leis das drogas podem não estar a funcionar na forma como a nação tinha esperança que funcionassem. Fale-me acerca dos elementos que observou anteriormente e que mudaram a opinião ou a sua forma de pensar.
Confira a entrevista na íntegra, clicando aqui!
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